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Todos os pecados


Todos os pecados são meus
Somente eu –ninguém mais –
posso responder por eles

Eles – todos os pecados –
não sabem de mim
eu que os cometi
livre-os dos demais pecados
do mundo
e venham a mim.

Relógio


A poesia neste momento é tão difícil
Tão difícil de sentir, de fazer sentido
Tudo, sem pecha, está tão parecido,
igual no filme, mocinho e bandido,
com o mesmo traje multicolorido.

A poesia neste momento é fugidia
Não se segura em nenhuma nova rima
que não se vê nem à luz do meio-dia

Horários

Que horas
é a hora do óbito?

Que horas
o coveiro abre a urna?

Que horas
é o minuto seguinte?

Que horas
é hora de chegar atrasado?

Agora nada mais me impede de ter medo

Agora nada mais me impede de ter medo
Todas as barreiras de proteção foram derrubadas
Todos os marcos civilizatórios estão apagados
Mesmo assim voto em busca da democracia

A urna, neste 28 de outubro, é a última trincheira
Carrego o título de eleitor em um dos bolsos da calça
Separado da carteira, confiando no leitor digital,
Confiando que mais pessoas estejam com medo

Sobre gravatas e Edgar Allan Poe

Quem tem medo de Eduardo Mahon
Não sai de gravata borboleta
Procurando pontos e vírgulas
Nem tasca uma palha na madrugada serenata

Quem tem medo de Eduardo Mahon
Observa, se esconde atrás da lombada
Do livro imprenso em legítimo cuiabanês

Sem Garantia

O poema não tem garantia estendida

A poesia é ou, se não é, o poeta fica

segurando a broxa da desilusão.

A Casa

guarda todos os segredos
imagináveis da família
o pai sempre bêbado
nos domingos,
as baratas no sótão,
as conversas caseiras
de Dona Nilma;
o zelo pela virgindade
das meninas e
o medo que os rapazes
sejam presos como subversivos.

Isto Não é Um Poema - Poema de Arnaldo Antunes





isto não é um poema

desabafo
que não pude não
fazer e não pude fazer
de outra forma
que não fosse
assim
fatiando as frases
no espaço
aqui
hoje
eu vi
aterrorizado 
um artista assassinado
Moa do Catendê,