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Tic-Tac

Meu coração
Sofre em silêncio
Feito relógio digital
Nem faz tic-tac.

Descaminhos

O poema feito com precisão
de um segundo,
quando embargava no ônibus,
não explodiu
e se perdeu na trilha
entre a intuição e o papel.

​Visitação

Cerrar as pálpebras
Para dormir
Abrir as retinas
De meus olhos
E viajar no sonho
Enquanto sono
Até de manhã.

Nenhum poema hoje

Hoje, não escrevi nenhum poema
Não houve assunto, ideia ou inspiração
O poema, se é que assim pode-se dizer,
ficou hibernado em algum plano
e neste momento não sabemos alcançar

Não escrevi nenhum poema, hoje
Acordei de mau-humor, coisa difícil,
mas acontece com todos os seres humanos
não importa se padre ou poeta

Pré-nupcial do poeta e a musa

O contrato pré-nupcial entre o poeta e a musa
Prevê uma porção de filhos que possa resultar em livros
Um clausula diz que a inspiração pode vir a tempo
até quando esteja, o poeta, filosofando no banheiro.

Cinco de Fevereiro


É vero, estou ficando velho, reconheço
Estou deixando a mocidade para traz
Os nervos não estão à flor da pele
Como antes, nem no endereço prometido

Estou ficando plenamente velho…
Amanhã ou depois de amanhã
Vai se confirmar, conforme combinado,
A certeza de ser mais velho ainda

Quanto Milhão


Ai, quanto milhão voando
Nos ares do Brasil
Em direção ao Norte
Do norte para o sul
Sem parada pré-determinada
Sem passaporte, sem avião

Ai, quanto milhão em malas
De cores diversas como todos
Os gostos são diversos
Em moedas correntes aqui
E lá nos Estados Unidos

Ano Novo se Repete, também se Renova

O ano novo começa em primeiro de janeiro
E os anos, desde antes de nós, tem doze meses...
Os meses são os mesmos, os eventos reprisam
Em primaveras, verões, outonos e invernos...

Tudo se repete... Mas, repara, nada é igual
A vida é um ciclo, círculo, só que em espiral
Tudo muda, tudo se transforma, tudo melhora
Com o passar dos anos, dos dias, das horas

Vamos festejar o natal



Vamos festejar o natal, meninada
Do Menino Jesus em Cuiabá
Veio andando, veio de madrugada
Veio sem fazer alarde, aqui está

Vamos festejar com o Menino...
- Não precisa tocar os sinos
Será uma festa simples, pouca
E vai durar a vida toda; não mais

Negócio de Ocasião

Vendo ou alugo um poema recém-refeito
Reformado para grandes eventos
Um poema para todos os sentimentos

O poema original estava esquecido
Com termos e rimas, hoje em desuso,
Parecia arcaico, um tanto esquisito

Pai Nosso que Estais no Céu

Pai Nosso que estais no céu
Pai de Nosso Senhor Jesus de Nazaré
Nosso irmão maior e mestre
Dai-nos a fé e compreensão
Para entendermos a sua infinita Justiça

Dai-nos a crença superior
Da eternidade da alm
Junto ao Espírito Santo,
Nosso consolador prometido

Prêmio Paraná de Literatura 2018 anuncia vencedores: Lourenço Cazarré (DF), Raimundo Neto (SP) e Daniel Arelli (MG)

Vencedores_Prêmio Paraná 2018

Da Assessoria | A Biblioteca Pública do Paraná (BPP) divulgou os títulos dos livros vencedores do Prêmio Paraná de Literatura 2018. Em sua quinta edição, o concurso da Secretaria de Estado da Cultura selecionou obras inéditas, de autores de todo o País, em três categorias que homenageiam figuras importantes da literatura paranaense. O júri apontou Kzar Alexander, o louco de Pelotas, de Lourenço Cazarré (DF), como o melhor romance (prêmio Manoel Carlos Karam). Todo esse amor que inventamos para nós, de Raimundo Neto (SP), venceu a categoria contos (prêmio Newton Sampaio). E Lição da matéria, de Daniel Arelli (MG), foi o destaque entre as obras de poesia (prêmio Helena Kolody).

Cuiabanos


Quem nasce aqui é cuiabano
Cuiabano, sem defeito de fabricação,
gosta de peixe, mojica de pintado
pirão e pimenta malagueta

Quem nasce aqui é cuiabano...
Sem querer defender a raça
as moças são modernas
as mulheres são bonitas
e sob o sol a pele morena
desperta desejos etéreos

Os Pomares de Cuiabá



Os pomares de Cuiabá...
Sabe-se que eram pomares
Sem se difundir o significante,
Embora o significado
- Não quero lembrar Saussure -,
Estivesse nos dicionários

Poucos falavam “pomar”
E muitos esqueciam o termo,
Talvez, por orgulho avesso

Tática


A Eunice Campos

Pra te amar
Armei uma tática
(Aritmética de amador)

De espreitar emprestei
Tanto olhar
Que seu olhar machuca

Minha Poesia

Falando francamente:
sou um fraco trovador
      um franco atirador
cuja troca tem um quê
de métrica desmedida
e diz e nem a fala
se manifesta na língua

Minha poesia não usa símbolos
metáforas, anáforas
Minha poesia é sem vestidos
segredos, medos, enredos
Minha poesia não tem presas
amarras ou pré-conceituais...

Versões


Existe verdade
na mentira muda

Existe um pranto
no eco do sorriso

Existe uma graça
em todo acalanto

Existe uma criança
em cada menino grande

Em cada verdade
há uma mentira

Poema Noturno


Saio noites em busca da verdade
vertente verde de aspirações
de sonâmbulos transeuntes
em ônibus de todos nós

Saio noites em busca de água
às margens de rios estranhos
esquecidos, esquecimentos aquecidos
por mentiras de leprosos

Saio noites em pouca companhia
de minha própria sombra lunar
de loucas luas por musas confusas
como mariposas de lâmpadas astrais

Saio noites serpentes em mágoas
ofendido por palavras ferinas, fétidas
porém, fugaz, minha alma repara o ato
e separa o claro-escuro-cinza.

Relógio


A poesia neste momento é tão difícil
Tão difícil de sentir, de fazer sentido
Tudo, sem pecha, está tão parecido,
igual no filme, mocinho e bandido,
com o mesmo traje multicolorido.

A poesia neste momento é fugidia
Não se segura em nenhuma nova rima
que não se vê nem à luz do meio-dia

Horários

Que horas
é a hora do óbito?

Que horas
o coveiro abre a urna?

Que horas
é o minuto seguinte?

Que horas
é hora de chegar atrasado?

Agora nada mais me impede de ter medo

Agora nada mais me impede de ter medo
Todas as barreiras de proteção foram derrubadas
Todos os marcos civilizatórios estão apagados
Mesmo assim voto em busca da democracia

A urna, neste 28 de outubro, é a última trincheira
Carrego o título de eleitor em um dos bolsos da calça
Separado da carteira, confiando no leitor digital,
Confiando que mais pessoas estejam com medo

Sobre gravatas e Edgar Allan Poe

Quem tem medo de Eduardo Mahon
Não sai de gravata borboleta
Procurando pontos e vírgulas
Nem tasca uma palha na madrugada serenata

Quem tem medo de Eduardo Mahon
Observa, se esconde atrás da lombada
Do livro imprenso em legítimo cuiabanês

Sem Garantia

O poema não tem garantia estendida

A poesia é ou, se não é, o poeta fica

segurando a broxa da desilusão.

A Casa

guarda todos os segredos
imagináveis da família
o pai sempre bêbado
nos domingos,
as baratas no sótão,
as conversas caseiras
de Dona Nilma;
o zelo pela virgindade
das meninas e
o medo que os rapazes
sejam presos como subversivos.