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Carta de Mim


Agora, em Cuiabá, está a amanhecer
enquanto noutras mil outras cidades,
ao oeste, ainda é madrugada
e as pessoas, por isso, dormem
O relógio, que conta o tempo,
este improcedente tempo, é preciso
está no meu pulso e pulsa comigo
segundo a segundo até o minuto...
O mesmo tempo que destrói moléculas
- até as mais puras - de nossos corpos
sem defesas, e pára o imprevisível...
O imprevisível é a terna madrugada
em outras cidades, por aqui, agora
acabei de saborear o café com pão...
II

O café era forte, o pão estava quente
a manteiga chegou a derreter-se...
O conjunto era perfeito sob a luz
mas sabia que a noite vigia além daqui
Além de nós existem outras pessoas,
além muito aléns, e não consigo
imaginar o mundo além do previsível
de amanhecer todos os dias em Cuiabá
Meu corpo hoje já não tem defesas
para as coisas novas, novidadeiras,
a acontecer todo momento do tempo...
Meu corpo se levanta da cama, meus pés
calçam os chinelos, bocejo, faço minhas orações,
escovo os dentes, tudo isso antes do café.
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