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Há Natal e Há Natais

A Glorinha Albuês

Existe, sim, um Natal diferente do nosso
Diferente de tudo aquilo que podemos apossar
com nossos olhos vorazes, dentro de uma casa
e difere de outras tantas casas de uma cidade

(Essa diferença está na felicidade da fartura
àquele que não tem pão, o muito que tem é privação)

O Natal do negro, negro, sempre negro,
por exemplo, é diferente ao do branco

Como também é diferente o Natal
dos que viveram das sombras nos porões
aos daqueles que sofreram suas torturas;
embora contemporâneos
não são cúmplices neste Natal

É, ainda, diferente o Natal
que se levanta em duros tragos de cachaça
em companhia do cansaço, fome, filhos e mulher
e a certeza de não estar adiando um Natal melhor;
daqueles à base de champanhe, vestindo chambre
ao lado do poder chanceler e dólares

O Natal do índio, que se tornou cristão
difere, em essência, ao do cidadão terno e gravata
esquivo nos olhos, medo e avareza de ladrão
Que outro ladrão terá 100 Natais de perdão

Como é avesso o Natal das mulheres
que nunca sentem orgasmo,
são estupradas em longínquas noites escuras
e procriam e criam como se isso fosse sina
daquelas que se perfumam e, mesmo no começo
vivem o fim de suas vidas esposas
de uso exclusivo em serviço

Como é diferente o Natal
do homem doente ao do homem enfermo
do homem demente ao do homem loquaz
do homem mendigo ao homem subserviente
do homem bandido ao do homem marginal
do homem animal ao do homem falido...

E o Natal se diferencia anualmente
em toda América Latina operária que trabalha
na esperança comum de um amanhã diferente
e porque há no ventre de Maria
- concepção do amor pleno -

uma criança que vai se chamar Salvador Allende.
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